A
SAÚDE DOS TRABALHADORES DA USINA CATENDE
EDUARDO
SILVA DE MENEZES*
Introdução
A
história de Pernambuco está diretamente ligada a história da cana-de-açúcar.
Primeiro com os engenhos banguês movidos a água e a tração animal, depois com
os engenhos movidos a vapor. Apenas no final do século XIX, foi que as usinas
de açúcar foram tomando o lugar dos antigos engenhos.
Toda essa produção da agroindústria
na Zona da Mata sempre foi responsável pelo emprego máximo do contingente de trabalhadores.
Porém, o que era muito bom para os empresários da cana-de-açúcar, não era tão
bom para os trabalhadores, principalmente quando o assunto era saúde. Grande
parte desses trabalhadores realizavam serviços braçais e eram bem pesados,
assim como os acidentes eram frequentes e conforme FERREIRA FILHO (2011),
aquela região não contava com serviços de saúde para o tratamento destes
trabalhadores, ou aqueles que existiam, eram ineficientes.
No Recife, em meados do século XX
foram inaugurados dois hospitais para atender os trabalhadores das usinas da
zona canavieira, o Hospital Barão de Lucena e o Hospital Gomes Maranhão. Porém
iremos priorizar neste trabalho o caso da Usina Catende, localizada no
município de Catende, a partir da década de 1930 manteve uma oferta de serviços
de saúde para os trabalhares e seus familiares. Além dos serviços básicos,
também foram construídos hospitais e postos de saúde, o que gerou um patrimônio
que hoje está presente na memória coletiva da comunidade, como um tempo de
prosperidade e que até hoje é rememorado pela população do município.
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* Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco;
A
memória coletiva através dos serviços de saúde promovidos pela Usina Catende: lugares
de memórias.
A
representação de um acontecimento passado ou a criação de uma imagem que temos
deste, se dá através daquilo que nós vemos ou ouvimos. Ou seja, por meio do
reconhecimento de um patrimônio, é possível rememorar um universo passado.
E assim por quase trinta anos a
população de Catende, município localizado na zona da mata pernambucana vive
cultuando a memória da agroindústria, representada pela antiga Usina Catende,
fundada no final do século XIX, no ano de 1892, por um engenheiro e comerciante
inglês, chamado Carlos Sinden em sociedade com seu sogro, o proprietário de
engenhos Felipe Paes.de Oliveira. Inicialmente a usina não deu resultados
satisfatórios, havendo uma sucessão de proprietários até que em 1920, foi
adquirida por uma sociedade da qual figurava o industrial pernambucano Antônio
Ferreira da Costa Azevedo¹ que em 1927, tornou-se o único proprietário da
indústria, sendo transformada em uma sociedade anônima formada em família
“Usina Catende S.A” em 1933.
Foi durante a administração do Costa
Azevedo que a usina sofreu inúmeras reformas e modernizações, aumentando sua
capacidade, chegando a ser considerada a maior usina de cana-de-açúcar do
Brasil em produção. Além de toda essa modernização, a empresa também contribuiu
bastante com a então Vila de Catende, pertencente ao município de Palmares, na
assistência social, educação, no entanto iremos nos ater aos serviços de saúde
oferecidos pela Usina Catende e que, mesmo após a desativação desses serviços e
falência da usina, ocorrida na década de 1990, continua a povoar a memória dos
catendenses como sendo um tempo glorioso, a qual, hoje, está reduzida à
rememoração, conforme fala Paul Ricouer, sendo apenas uma coisa lembrada.
Policlínica Gouveia de Barros:
presença de uma coisa ausente
Até
a primeira metade do século XX, as condições de vida e a saúde dos canavi-
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¹ Nascido no engenho Trapuá, na época pertencente ao município
de Nazaré da Mata (hoje pertence ao município de Tracunhaém) no dia 16 de
fevereiro de 1882 e falecido no Recife, no dia 20 de março de 1950.
eiros
estavam associadas à deformações corporais, doenças e acidentes de trabalho
(FERREIRA FILHO, 2011). Para tentar amenizar essa situação que por anos foi de sofrimento
para os trabalhadores, o proprietário da Usina Catende, fora de qualquer
obrigação legal e independentemente de descontos ou contribuições por parte dos
trabalhadores, construiu e manteve uma policlínica, um lactário, postos de
puericultura e postos de saúde na zona rural.
A Policlínica foi inaugurada em 1947
e recebeu o nome “Gouveia de Barros” em homenagem ao médico pernambucano,
sanitarista, professor da Faculdade de Medicina de Pernambuco, deputado federal
e chefe do setor neurológico do Hospital Pedro II.
Policlínica Gouveia de Barros. Fonte: Livro Memória Histórica de Catende.
A Policlínica contava com serviços
de ambulatório, odontologia, pequenas cirurgias, obstetrícia, ginecologia,
fisioterapia e clínica geral, com instalações adequadas e modernas. Da sua
inauguração até o final do ano de 1948, foram os seguintes números de
atendimentos:
Fonte: Edição nº 292 do Diário de Pernambuco, 16/12/1948.
No ano de 1963, anexo a Policlínica
foi construído um pavilhão de cirurgia geral “Helena de Azevedo Passos”, com
salas de cirurgia, moderna sala de parto, setor de esterilização e arsenal
cirúrgico, apartamentos para os médicos e três apartamentos para os doentes.
Sendo o Pavilhão atendido com oxigênio canalizado, em todos os seus ambientes.
Diante dessa situação, o município
de Catende teve um período áureo, principalmente no setor da saúde, como
podemos observar. Com a decadência da usina Catende, a Policlínica foi desativa
na década de 1990² e a usina teve sua falência decretada judicialmente em 1995.
Porém, mesmo com essa distância temporal, os catendenses alimentam esse
sentimento platônico, pois apesar de não mais existência dos serviços de saúde,
o prédio da policlínica continuava lá, mesmo não tendo mais funcionamento.
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² O prédio da Policlínica foi reformado pelo poder
público municipal, em 2016 e tendo em vista o telhado da Unidade Mista e
Maternidade do Município estando ameaçando cair, a referida unidade foi
transferida para o prédio da antiga policlínica, onde está instalada até o
presente momento.
Podemos
explicar esse sentimento, quando Paul Ricoeur diz “com a lembrança o ausente
traz a marca temporal do anterior” (RICOEUR, 2007, p. 38). Ainda segundo
(RICOEUR, 2007, p. 64), o lembrado apoia-se no representado, ou seja, a rememoração
dos “tempos bons” (lembrança) está apoiando-se no prédio da antiga policlínica
(representação).
Mesmo
gerações que não vivenciaram este período, tem na representação do prédio da
Policlínica a memória de uma suntuosidade, isso pode ser explicado por RICOEUR
(2007, p. 157).
Da
memória compartilhada passa-se gradativamente à memória coletiva e suas
comemorações ligadas a lugares consagrados pela tradição: foi por ocasião
dessas experiências vividas que fora introduzida a noção de lugar de memória, anterior às
expressões e às fixações que fizeram a fortuna ulterior dessa expressão.
Considerações Finais
A
história da Zona da Mata de Pernambuco está diretamente ligada a produção de
cana-de-açúcar. No município de Catende, a usina surgida no final do século
XIX, teve seu período de apogeu em meados do século XX, na administração de Antônio
Ferreira da Costa Azevedo.
Como as condições de saúde eram
precárias para os trabalhadores, por meio do Costa Azevedo, os trabalhadores da
Usina Catende tiveram por longos anos³, serviços de saúde de qualidade e de
forma gratuita.
Esse período satisfatório para os
trabalhadores teve um final. E com a ausência dos serviços, essa distância
temporal é rememorada até os dias de hoje. Tanto que de tanto evocar o passado,
através dos vestígios, na imagem da Policlínica, foi atribuído valor ao que não
mais tinha utilidade, quando o prédio foi reformado pelo poder público, dando
um aproveitamento, a volta do funcionamento pela transferência de outra unidade
de saúde.
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² Mesmo após sua
morte, os serviços tiveram continuidade, inicialmente com seu filho João da
Costa Azevedo e as demais administrações.
Referências
FERREIRA
FILHO, José Marcelo Marques. O “Hospital
das Usinas” e os trabalhadores do açúcar na zona canavieira de Pernambuco
(1958-1973). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH – São
Paulo, julho 2011.
MENEZES,
Eduardo. Memória Histórica de Catende. 2ª
Edição, revista e ampliada. Catende: Ed. do Autor, 2014.
PERES,
Gaspar; PERES, Apollonio. A indústria
açucareira em Pernambuco. Recife: CEPE, 1991..
RICOEUR,
Paul. A memória, a história, o
esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
Jornais
Diário
de Pernambuco, 09 de dezembro de 1947 e 16 de dezembro de 1948.
2 comentários:
Excelente!!!!
" Defender a história é preservar a memória "
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